Conclusão é de estudo que resume mais de 1.900 artigos científicos sobre tema; candidato neurodivergente defende adoção de pacote de saúde que trate pais e responsáveis no mesmo nível e de forma simultânea a diagnosticados
Com os primeiros dados estatísticos oficiais sobre a população de portadores do Transtorno do Espectro Autista (TEA), os diagnosticados passaram a centralizar amplos debates acerca dos desafios de seu atendimento. Um grupo de pessoas, porém, permanece negligenciado: o dos cuidadores dos estratos dessa população portadores de níveis mais altos de comprometimento.
Estudos recentes já começam a mostrar a verdade por trás das exigentes rotinas de tratamento dos autistas de níveis 2 (moderado) e 3 (grave). Publicado no final de julho deste ano, o Review Journal of Autism and Development Disorders reuniu mais de 1.900 artigos científicos sobre o tema para chegar a uma conclusão alarmante: o nível de estresse de pais e cuidadores de atípicos com maior nível de comprometimento é comparável àquele experimentado por veteranos de guerra.
A avaliação provém do fato de as doenças identificadas como as mais comuns entre cuidadores e pais de atípicos serem os mesmos daqueles verificados de pessoas recém-egressas de ambientes de conflitos armados. Entre eles estão burnout parental, transtorno de ansiedade generalizada (TAG), depressão, tristeza crônica e estresse pós-traumático. Também foram incluídas doenças que se manifestam no corpo físico, como condições cardiovasculares, hipertensão, doenças autoimunes e queda na imunidade.
Entre os principais gatilhos identificados pela Review para essas condições de saúde, constam dinâmica familiar, condições financeiras, serviços de saúde e educação inadequados. O aspecto mais grave é a tendência à continuidade, ou seja: por mais que as doenças afetas surjam e sejam superadas, elas tendem a retornar porque os gatilhos persistem.
Diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), o empresário canedense Samuel Carvalho, candidato a deputado estadual pelo Republicanos, é um crítico desse cenário, que ele classifica como abandono. “Se os próprios diagnosticados não têm acesso a um pacote decente de terapias oferecidas pelo Poder Público, imagine o nível de omissão enfrentado pelos cuidadores dos autistas níveis 2 e 3”, avalia.
Programa Saúde do Cuidador de Atípico
Carvalho defende a criação de um pacote de ações no campo da psiquiatria, psicologia e medicina diagnóstica que ele chama de Programa Saúde do Cuidador de Atípico. “O formato, o número e o tipo de terapias envolvidas nesse pacote deve ser fruto de discussão pública, conduzido por profissionais de saúde competentes para isso”, afirma.
O candidato destaca, porém, que o aspecto imprescindível desse pacote deve ser o seu timing. “Eu considero fundamental que pais, responsáveis e outros cuidadores sejam tratados de forma simultânea aos diagnosticados. E mais: esse pacote deve funcionar sem perspectiva de terminar, ou deve ser concluído a partir de laudo de profissional especializado”, avalia.
Para Samuel, somente assim pais, responsáveis e outros cuidadores de atípicos com maior nível de comprometimento poderão aspirar a uma vida com maior conforto e dignidade. “O desafio em si mesmo já é enorme e difícil. Nossa omissão, aquela da sociedade organizada e do Poder Público, transforma essa rotina pesada em uma dura realidade de descaso. Precisamos corrigir essa dívida que temos com essa parcela da população. Trata-se de uma questão humanitária”, define.